
Nada de ajuste fiscal, juros altos ou cotoveladas na base aliada. Depois de 50 dias fora do governo, o que atormenta mesmo a vida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma teimosa goteira dentro de seu apartamento de São Bernardo do Campo, no sudoeste da região metropolitana de São Paulo. Sem avarias no relacionamento com a presidente Dilma Rousseff, Lula atribui as “fofocas” sobre atritos entre “criador” e “criatura” à tentativa da oposição de criar fatos.
“Eu não tenho uma vírgula de discordância com a Dilma e, quando tiver divergência, ela terá sempre razão”, disse ele à reportagem, na sexta-feira, durante viagem de volta do Rio para São Paulo, no voo 1517 da Gol. Enquanto lia o livro A Nova Toupeira, do sociólogo Emir Sader, que trata dos desafios da esquerda na América Latina, Lula reclamava com o assessor e ex-presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Paulo Okamotto da falta de pedreiro para consertar a goteira de três anos e traçava planos para o Instituto Lula.
O ex-presidente quer criar uma página na internet e instalar um memorial de lutas sociais no centro da capital paulista, mais precisamente na Cracolândia. Tenta encontrar um imóvel com o auxílio do prefeito da capital, Gilberto Kassab (DEM), que pode migrar para o PSB. Disposto a não causar embaraços a Dilma, a quem chama de “essa menina”, Lula faz de tudo para protegê-la.
Na quarta-feira, dia da votação do salário mínimo de R$ 545,00 na Câmara dos Deputados, o ex-presidente conversou com ela várias vezes por telefone, da capital fluminense, e transmitiu uma série de orientações. Na quinta-feira, ligou para cumprimentá-la pela vitória no primeiro teste parlamentar. “Foi justo o que foi aprovado. As centrais sindicais não podiam quebrar as regras. Acordos são para ser cumpridos porque, se você não age assim, perde o respeito”, afirmou.
Quando é cercado por jornalistas, porém, Lula não parece nada à vontade ao falar sobre a administração federal. Embora admita dificuldades no processo de “desencarnação”, por ter passado a faixa presidencial com 87% de popularidade, quer um tempo para “maturar” as ideias antes de dar declarações. A quarentena vai até Quarta-Feira de Cinzas (dia 9). “Eu combinei com a Dilma que, ou eu vou ajudar, ou vou ficar calado. Sempre fui assim. Quando deixei o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e quando saí da presidência do PT, não ficava dando palpite. Acho isso uma coisa abominável”, insistiu.
Perspectivas
A atuação do petista na seara política ocorre nos bastidores, longe dos holofotes. Na noite de quinta, ainda no Rio, o ex-presidente jantou com empresários que lhe pediram para traçar um panorama econômico, com perspectivas para os próximos anos. Antes, naquele mesmo dia, havia almoçado com a economista Maria da Conceição Tavares. Diante da queixa de Maria da Conceição de que não conseguia ser atendida por Dilma, passou a mão no telefone e ligou para o Palácio do Planalto.
“Fale aqui com ela agora”, disse, entregando o aparelho para a economista. “Quem tem um padrinho desse não morre pagão”, devolveu Maria da Conceição. Conhecida por críticas contumazes à ortodoxia econômica, ela marcou encontro com Dilma para os próximos dias, mas afirmou que não dará bordoadas no corte de R$ 50 bilhões do Orçamento. “Não sou maluca. Estou do jeito do Lula, numa ‘nice’”, brincou.
Depois de participar do Fórum Social Mundial, no Senegal, Lula viajará nesta segunda-feira para a Guiné. Nos dois mandatos, o ex-presidente visitou 29 países da África. Agora, mesmo longe do poder, Lula tem programação típica de governante: a convite da Vale, lançará a pedra fundamental da Ferrovia Trans-Guiné, destinada ao transporte de passageiros e cargas leves. Na prática, o homem mais importante do País nos últimos oito anos não conseguiu, até hoje, vestir o figurino de “ex” nem mudar a rotina.(OHOJE)










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